Nas mãos do Brasil

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Falar de handmade brasileiro é mergulhar num território de pesquisas, de buscas, logística e, claro, expertise para lidar com matéria-prima de forma sustentável. Este é o desafio da Catarina Mina, marca fundada por Celina Issa em 2014 e “imaginada” desde 2005, nos tempos de faculdade.

Conversar sobre a marca Catarina Mina é conferir o tanto que suas peças são inesquecivelmente brasileiras. A escolha de cores, a artesanalidade, texturas e um balanço que só mesmo uma marca tropical consegue. Mas estamos falando de moda, e por isso, não basta apenas um modo de fazer, é preciso estar conectado com o gosto do momento. A designer contou para nosso site um pouco da história da marca, que começou com bolsas e acessórios e hoje produz roupas e linha home.

A Catarina Mina vende hoje principalmente no e-shop, nacional e global, em multimarcas nacionais e em três lojas próprias físicas no Brasil: duas em SP e uma em Fortaleza. Exporta para 17 países, mas a ideia é expandir ainda mais, sem perder a mão sustentável e o gosto brasileiro.

Vocês participaram recentemente da exposição Brazilian Creating for Tomorrow em Londres. Como foi que tudo aconteceu? Quais as percepções o público teve, segundo o que vocês sentiram?

A gente recebeu esse convite, com muita alegria, e logo isso ativa em nós um senso de responsabilidade enorme. Recentemente, fomos certificados pelo Sistema B e é impressionante como uma chancela internacional deste peso faz com que a gente sonhe ainda mais alto, queira galgar ainda mais espaço no mercado da moda de impacto. Estar em Londres no BCFT foi importantíssimo. O evento faz parte da Climate Week, um evento super alinhado com nosso propósito, que é o de buscar soluções pro futuro, de fazer a nossa parte nesse caminho. Expomos peças feitas com borracha da Amazônia, que simboliza também a gente chegando a outras fronteiras, mais longe do nosso lugar de origem, que é o Ceará. Direto do pulmão do mundo, o látex é uma das matérias-primas em que temos nos aprofundado.

A gente sente que o público se orgulha muito em ver que no Brasil há iniciativas como esta e que a gente aproveita a nossa diversidade de clima, de gente, de talentos, para tentar construir um futuro possível.

Vocês já participaram de feiras internacionais? Quais? Conte-nos alguma dessas experiências. Vocês já estiveram em algum projeto com apoio da Abest/Apex (FLB)? Como foi?

Sim! Estreamos em feiras internacionais ainda em 2016. Estivemos na Who’s Next em Paris algumas vezes, na Cabana, em Miami e NY, na Coterie, na Premiere Classe e na Splash.

Poderiam falar sobre a experiência de fazer um desfile? O que acham dessa ferramenta de comunicação?

Um desfile é o ponto alto de uma marca de moda… omomento do show. É um desafio complexo, porque é preciso contar na passarela uma história que, no nosso caso, é cheia de personagens importantíssimos (as artesãs), tipologias riquíssimas, patrimônio histórico imaterial, tanta coisa… Mas é prazeroso demais. O styling, a montagem, a escolha dos looks, a maquiagem, o line up, as modelos. Eu particularmente adoro e me sinto cada ano um pouco mais à vontade para desenvolver esse tipo de narrativa. Eu diria que a Catarina Mina hoje adora a passarela. Este ano já estivemos no maior evento de moda autoral da América Latina, que aconteceu na nossa cidade Natal, Fortaleza. Mas já desfilamos no SPFW e na Milão Fashion Week.

Em quais lugares a marca costuma apresentar as coleções?

Hoje estamos em showrooms fora do Brasil. Um que atende os EUA e ativa parcerias com outros na Espanha e Grécia. Além das feiras e desfiles, claro.

Gostaríamos de saber um pouco da trajetória da marca, como foi concebida e quanto tempo demorou para se estabelecer.

A marca foi concebida entre 2005 e 2006, e nesse começo, criava bolsas com tecidos, era uma fase mais experimental. Foi fundamental pra mim começar pequena, artesanal, com pequenas tiragens, e ir entendendo o mercado aos poucos. No começo fazia muitos pedidos de atacado em formato private label, e aprendi a trabalhar com marcas nacionais de destaque, que exportavam, inclusive. Esse foi outro grande aprendizado. Entre 2008 e 2013 trabalhamos com o crochê e fomos desenvolvendo grupos de artesãs, associações, uma relação num mercado novo, para que pudéssemos conhecê-lo, experimentá-lo. E foi lindo. Nessa época eu fazia mestrado em Comunicação na Universidade Federal do Ceará e estudava os modos coletivos de produção. Foi fundamental para entender que a moda que eu queria fazer era diferente do que se via. Neste começo a marca se traduziu em um projeto que era mais colaborativo, mais coletivo do que as outras empresas que eu conhecia até então.

Só em 2014 é que decidi encarar o varejo de frente, e começar a trabalhar a marca Catarina Mina para ser o que o mundo consegue enxergar hoje: uma marca feita à mão, premium, brasileira, de qualidade, de impacto.

Atualmente quantas lojas e pontos de venda a marca tem?

Temos 3 lojas próprias no Brasil, duas em SP (em Pinheiros e no JK Iguatemi) e uma em Fortaleza, onde também fica parte do nosso ateliê. O e-shop também é um ponto de venda muito forte, que tem um público específico e por meio do qual a gente chega em cada cantinho do Brasil e do mundo. Temos também um e-shop global.

Qual o tipo de público que gosta da marca no Brasil? E fora do Brasil você vê diferença?

Não vejo muita diferença entre o público que gosta da marca no Brasil e fora dele. Ele é diverso, e acho que o que o conecta é ser composto principalmente de mulheres, que dão valor ou gostam de carregar o handmade. Gostam da linguagem, da textura, acham bonito, acham que tem interessância no handmade. Isso me agrada. Pensar que consigo atingir um público que me entende na essência e principalmente gosta dessa essência.

Vocês pretendem expandir a marca no âmbito internacional? Poderiam nos explicar essas intenções?

A história da marca no internacional começou como começou no nacional: a gente foi entendendo, galgando, conquistando, passo após passo. Agora, com alguns pontos de venda consolidados, especialmente na Europa, a gente sonha em abrir uma loja física numa capital europeia, que receba turistas do mundo inteiro, que tenha fluxo, e que reconheça a Catarina Mina como uma marca brasileira, sim, mas sem fronteiras. Quem arrisca adivinhar que capital é essa? Eu por enquanto não posso dizer! (risos)

 Quais as práticas dentro do tema sustentabilidade costumam seguir? É um desafio? Pretendem aumentar essas práticas?

Sem dúvida é um desafio, porque é um investimento, e todo investimento é desafiador. Mas a gente costuma dizer aqui que não escolhe entre lucrar e impactar, não precisa escolher, a gente quer os dois, faz questão dos dois. Nos últimos dois anos estivemos organizando dados dentro da empresa, a fim de registrar formalmente tudo que fizemos de 2014 até aqui em termos de impacto nas comunidades, no meio ambiente, no trabalho com minorias. Fundamos um setor de impacto, que hoje congrega um time que passa todo o tempo disponível para esse assunto, respirando o impacto social. Entre 2023 e 2025 estivemos completamente focados na conquista pelo SELO B, uma certificação internacional que queríamos muito. Ele veio, e com ele a responsabilidade de continuar crescendo nesse sentido, então, sim, pretendemos aumentar essas práticas, sempre.

Com quais matérias primas costumam trabalhar? Como define o processo de design?

Priorizamos sempre as matérias-primas naturais e brasileiras para cumprir nosso propósito de sustentabilidade. Há algodão puro, algodão orgânico vindo da Paraíba, palha de seda vinda do Sul, borracha da Amazônia, fibras naturais como carnaúba, bananeira, croá, linho puro, rami, metais brasileiros. É uma grande miscelânea criativa de soluções, num mundo que hoje tem que lidar com o excesso de produção, com as escalas gigantescas do fast fashion, com a escassez de recursos, com a desigualdade social. É um desafio. Mas, sim, a gente tem esse propósito definido e está sempre em busca do alinhamento com ele.

Qual produto é o best seller da marca?

Preciso falar de dois: a Cantiga, que é a primeira bolsa de muitos clientes quando começam a comprar na Catarina Mina, uma bolsa que é feita desde 2011. Isso pra mim é um valor enorme, uma bolsa que perpassa coleções, atravessa o tempo, num mercado que vende tanto a perecibilidade. Ela é sem dúvida um best seller. Mas recentemente uma bolsa pequenina e também muito mimosa (e jovem) passou dela: a Pouch Cafuné, uma pochete que a maioria das pessoas usam na transversal, junto ao corpo. Ela é informal, jovem, simples, sem tantos detalhes e com um design brilhante. Fico pensando que a Catarina Mina pode ter essas duas vertentes: uma mais sofisticada, com metais, com alças adaptáveis, com mais robustez, e uma mais leve, mais prática, mais simplificada. Tem moda pra todos os gostos, desde que seja handmade.

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Por Juliana Lopes, editora da Fashion Label Brasil. @j.u.lopes

Fotos: Divulgação Catarina Mina

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